D.E. Publicado em 31/03/2016 |
EMENTA
ACÓRDÃO
Vistos e relatados estes autos em que são partes as acima indicadas, decide a Egrégia Terceira Seção do Tribunal Regional Federal da 3ª Região, por unanimidade, dar parcial provimento aos embargos infringentes, a fim de acolher o voto vencido e conceder a tutela antecipada, nos termos do relatório e voto que ficam fazendo parte integrante do presente julgado.
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EMBARGOS INFRINGENTES Nº 0000990-98.2007.4.03.9999/SP
RELATÓRIO
O SENHOR JUIZ FEDERAL CONVOCADO CARLOS DELGADO (RELATOR):
Trata-se de Embargos Infringentes opostos por Conceição Pinto Bucchitti contra o v. acórdão proferido pela Sétima Turma desta Corte que, por maioria, negou provimento ao agravo legal tirado da r. decisão monocrática que reformara a r. sentença de primeiro grau, julgando improcedente o pedido de aposentadoria por idade rural.
O v. acórdão embargado, de lavra da Eminente Desembargadora Federal Leide Polo, foi assim ementado:
Aduz a embargante, em suas razões recursais de fls. 334/342, que deve prevalecer a tese sustentada pelo voto vencido, o qual teve por comprovada a atividade rurícola pelo tempo legalmente exigido, levando em conta a prova testemunhal e o início de prova material apresentado.
A autarquia embargada apresentou contrarrazões, nas quais sustenta que deve prevalecer o voto condutor, que não viu como comprovada a atividade rural nos termos do art. 143 da Lei de Benefícios (fls. 386/389).
Remetidos os autos ao eminente Des. Fed. Fausto de Sanctis para a juntada do voto minoritário, nos termos do r. despacho de fl. 391, acostou-se a correspondente declaração às fls. 398/400.
Os presentes embargos, opostos em 12.03.2012, foram admitidos à fl. 402, por decisão datada de 19 de dezembro de 2012, de lavra do eminente Juiz Fed. Convocado Carlos Francisco, sem manifestação posterior de ambas as partes (fl. 405).
Redistribuídos à fl. 405, os autos vieram conclusos para decisão.
É o relatório.
À revisão (artigo 34, V, do Regimento Interno desta Corte).
CARLOS DELGADO
Juiz Federal Convocado
EMBARGOS INFRINGENTES Nº 0000990-98.2007.4.03.9999/SP
VOTO
O EXMO. SENHOR DES. FEDERAL GILBERTO JORDAN (RELATOR):
A controvérsia refere-se à aptidão do conjunto probatório acostado aos autos para a demonstração da atividade rurícola, no período imediatamente anterior à data do requerimento, pelo tempo necessário à concessão do benefício de aposentadoria por idade pleiteada.
Por decisão não unânime, a Egrégia Sétima Turma desta Corte negou provimento ao agravo legal tirado da r. decisão monocrática que reformara a r. sentença de primeiro grau, julgando improcedente o pedido de aposentadoria por idade rural. Na oportunidade, restou vencido o ilustre Desembargador Federal Fausto de Sanctis, o qual dava provimento ao agravo legal a fim de conceder à embargante o benefício pretendido.
A eminente Desembargadora Federal Leide Polo, em seu voto condutor de fls. 327/329, negou provimento ao recurso, fundamentando, em síntese, que:
Inclino-me ao resultado proposto pelo voto vencido, segundo o qual os documentos acostados aos autos constituem-se em início de prova material suficientemente corroborado pela prova testemunhal (fls. 398/400).
A Lei Complementar nº 11, de 25 de maio de 1971, que instituiu o Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural - FUNRURAL, em seu art. 4º, dispunha ser a aposentadoria por velhice devida ao trabalhador rural que completasse 65 (sessenta e cinco) anos. Em 30 de outubro de 1973, foi publicada a Lei Complementar nº 16, que alterou dispositivos da supracitada lei e fixou, no seu art. 5º, que a qualidade de trabalhador rural dependeria da comprovação de sua atividade pelo menos nos últimos três anos anteriores à data do pedido do benefício, ainda que de forma descontínua.
Também o Decreto nº 83.080, de 24 de janeiro de 1979, que aprovou o Regulamento dos Benefícios da Previdência Social dispunha, litteris:
A Constituição Federal de 1988 trouxe, em sua redação original, o art. 202, I, in verbis:
A partir da edição da Lei nº 8.213/91, tal dispositivo constitucional foi definitivamente regulamentado e, portanto, a idade para a concessão da aposentadoria do trabalhador rural diminuída para 60 (sessenta anos), se homem e 55 (cinquenta e cinco), se mulher.
A Lei nº 8.213/91, na redação original do art. 143, prescrevia que a benesse de aposentadoria por idade dos trabalhadores rurais seria devida ao segurado obrigatório do Regime Geral de Previdência Social, na forma da alínea "a" do inciso I, ou do inciso IV ou VII do art. 11 da referida norma, desde que fosse comprovado o exercício de atividade rural nos últimos 5 anos anteriores à data do requerimento, mesmo de forma descontínua, não se aplicando, nesse período, para o segurado especial, o disposto no inciso I do art. 39.
Posteriormente, com a redação conferida pela Lei nº 9.063/95 ao referido dispositivo, o benefício passou a ser devido ao segurados enquadrados pelo art. 11, I, "a", IV e VII, do diploma legal citado, que completar 60 (sessenta) anos de idade, se homem, ou 55 (cinquenta e cinco) anos, se mulher e comprovar o exercício da atividade rural, ainda que de forma descontínua, no período equivalente à carência exigida, nos termos dos arts. 26, III, e 142 do referido texto legal.
Acerca do tema algumas considerações se fazem necessárias, uma vez que balizam o entendimento deste Relator no que diz com a valoração das provas comumente apresentadas.
Declarações de Sindicato de Trabalhadores Rurais somente fazem prova do quanto nelas alegado, desde que devidamente homologadas pelo Ministério Público ou pelo INSS, órgãos competentes para tanto, nos exatos termos do que dispõe o art. 106, III, da Lei nº 8.213/91, seja em sua redação original, seja com a alteração levada a efeito pela Lei nº 9.063/95.
Na mesma seara, declarações firmadas por supostos ex-empregadores ou subscritas por testemunhas, noticiando a prestação do trabalho na roça, não se prestam ao reconhecimento então pretendido, tendo em conta que equivalem a meros depoimentos reduzidos a termo, sem o crivo do contraditório, conforme entendimento já pacificado no âmbito desta Corte.
Igualmente não alcançam os fins pretendidos, a apresentação de documentos comprobatórios da posse da terra pelos mesmos ex-empregadores, visto que não trazem elementos indicativos da atividade exercida pela parte requerente.
Já a mera demonstração, por parte do autor, de propriedade rural , só se constituirá em elemento probatório válido desde que traga a respectiva qualificação como lavrador ou agricultor. No mesmo sentido, a simples filiação a sindicato rural só será considerada mediante a juntada dos respectivos comprovantes de pagamento das mensalidades.
Ressalto que adoto, no tocante ao critério de fixação do termo inicial para contagem do tempo a ser reconhecido, o recente posicionamento do E. Superior Tribunal de Justiça, em decisão proferida em sede de recurso especial representativo de controvérsia repetitiva (REsp 1.348.633/SP, 1ª Seção, j. 28.08.13), no qual admitiu a possibilidade de reconhecimento de labor rural anterior ao documento mais antigo juntado como prova material, desde que corroborado por testemunhos idôneos.
Tem-se, por definição, como início razoável de prova material, documentos que tragam a qualificação da parte autora como lavrador, v.g., assentamentos civis ou documentos expedidos por órgãos públicos. Nesse sentido: STJ, 5ª Turma, REsp nº 346067, Rel. Min. Jorge Scartezzini, v.u., DJ de 15.04.2002, p. 248.
Da mesma forma, a qualificação de um dos cônjuges como lavrador se estende ao outro, a partir da celebração do matrimônio, consoante remansosa jurisprudência já consagrada pelos Tribunais.
Outro aspecto relevante diz com a averbação do tempo de serviço requerida por menores de idade, em decorrência da atividade prestada em regime de economia familiar. A esse respeito, o fato da parte autora não apresentar documentos em seu próprio nome que a identifique como lavrador(a), em época correspondente à parte do período que pretende ver reconhecido, por si só, não elide o direito pleiteado, pois é sabido que não se tem registro de qualificação profissional em documentos de menores, que na maioria das vezes se restringem à sua Certidão de Nascimento, especialmente em se tratando de rurícolas. É necessária, contudo, a apresentação de documentos concomitantes, expedidos em nome de pessoas da família, para que a qualificação dos genitores se estenda aos filhos, ainda que não se possa comprovar documentalmente a união de esforços do núcleo familiar à busca da subsistência comum.
Em regra, toda a documentação comprobatória da atividade, como talonários fiscais e títulos de propriedade, é expedida em nome daquele que faz frente aos negócios do grupo familiar. Ressalte-se, contudo, que nem sempre é possível comprovar o exercício da atividade em regime de economia familiar através de documentos. Muitas vezes o pequeno produtor cultiva apenas o suficiente para o consumo da família e, caso revenda o pouco do excedente, não emite a correspondente nota fiscal, cuja eventual responsabilidade não está sob análise nesta esfera. O homem simples, oriundo do meio rural, comumente efetua a simples troca de parte da sua colheita por outros produtos de sua necessidade que um sitiante vizinho eventualmente tenha colhido ou a entrega como forma de pagamento pela parceria na utilização do espaço de terra cedido para plantar.
Ao caso dos autos:
No presente caso, a parte autora, nascida aos 17 de dezembro de 1937 (fl. 23), completou o requisito idade mínima em 1992 e, em observância ao princípio do tempus regit actum, deve demonstrar o efetivo exercício da atividade rural nos últimos 5 (cinco) anos anteriores à data do requerimento (in casu 01.12.1993 - fl. 12), mesmo de forma descontínua, conforme a redação original do art. 143 da Lei nº 8.213/91.
Para comprovação do labor campesino, ela carreou aos autos a Declaração do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Novo Horizonte (fl. 43), a qual aponta o desempenho da atividade rural em regime de economia familiar no período de 29.05.1985 a 18.08.1993, por mais de 8 (oito) anos, ininterruptos, portanto, devidamente homologada pelo Ministério Público em 18.08.1993, constituindo prova do seu labor rural nos exatos termos do que dispunha o art. 106, III, da Lei nº 8.213/91, em sua redação original.
Conveniente salientar também que a Autarquia Previdenciária em momento algum, em mais de 9 (nove) anos de tramitação do feito, impugnou referido documento no seu conteúdo.
Em seu voto condutor, a eminente Desembargadora Federal Leide Polo considerou que o conjunto probatório não era suficiente para comprovar o trabalho da embargante no período imediatamente anterior à data do requerimento.
Peço-lhe licença para discordar, uma vez que a Declaração do Sindicato supramencionada atesta o labor campesino da postulante por mais de 8 (oito) anos, exatamente no período anterior ao preenchimento do requisito etário e do primeiro requerimento administrativo formulado (01.12.1993 - fl. 12).
Ademais, entendo que o conjunto probatório de fls. 107/2002 constitui início de prova material suficiente robusta para conjuntamente com a prova testemunhal amparar a pretensão da autora.
Portanto, considerando que a autora preenche todos os requisitos necessários à concessão do benefício pleiteado, de modo a prevalecer o voto vencido, o qual dava provimento ao agravo legal da embargante para reconhecer o direito da autora, ora embargante, ao pagamento do benefício da aposentadoria por idade rural à autora/embargante a partir da data da citação do INSS.
Os juros e a correção monetária devem ser calculados em consonância com o Manual de Cálculos da Justiça Federal.
Condeno a autarquia embargada ao pagamento de honorários advocatícios arbitrados em 10% sobre o valor das parcelas vencidas até a data da sentença, como também concedo a tutela antecipada para determinar a imediata implantação do benefício em favor da embargante.
Ante o exposto, dou parcial provimento aos embargos infringentes para que prevaleça o voto vencido (fls. 398/400), que dava provimento ao agravo legal, a fim de reconhecer o pedido de aposentadoria por idade rural da embargante, no termos da fundamentação supra.
Concedo a tutela antecipada, para determinar a imediata implantação do benefício.
É como voto.
Oficie-se o INSS para promover o imediato cumprimento da antecipação da tutela.
GILBERTO JORDAN
Desembargador Federal Relator
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Data e Hora: | 15/02/2016 13:54:17 |